domingo, 21 de junho de 2026

Terracota

a Murilo Riuto


Dos momentos puros, se existem, cuidam os artistas


Partiu amigo da infância de um mal severo

Despedida em vida seria desilusão de resgate

Em morte, à mortuária, nódua na primeira


O que foi do tempo nu da pecha da adultice

Deixemos nos confins dos descompromissos

É lá que se aproveita o genuíno da meninice


Nossos corpos terrenos cumpriram a tarefa

Uniram no sagrado qualquer almas céticas

Surpreenderam-nas em aura para sempre compartida


O império dos regozijos implanta-se no pensamento

Define o que é o humano particular

E aglomera sinais no coletivo da história


E dessa indefinição do tempo enterrado com o amigo

Até o tempo sublimado no encontro de crianças


Desses momentos puros, se existem, cuidam os artistas





domingo, 29 de junho de 2025

São João

Enquanto tochas de fé

Lampejarem neste mundo

Eu saberei de ti nele

Me chamando, e seguro


Com força no pé

Um sorriso largo

Um amor inteiro

Num leito em brasa


A esperança que carregas

Enche de luz meu segundo

Meu estado é já sem regras

Resgato tudo contigo


Paz no amanhecer

Um corpo que sara

A sede, se eleva

E urra como um galo




quarta-feira, 11 de junho de 2025

À Manuel Bandeira

Quando a mais silente das damas

no seu afã e inobservância chegar

vai encontrar:

um níquel trocado bem usado

migalhas miúdas pelo saco de pão aberto

um sapado respingado 

uma pela desejosa e macia

e uma alma lavada


domingo, 15 de dezembro de 2024

nome:

 Antes de tudo, uma grande dor

e olhos que mal se reconhecem.

Não saber o que se esperar molda

a ferida interna ao amadurecer.


Sós em mundos que se combatem

ora hereges ora guardiões

(ou chame-os à revelia também),

piscam numa rede de ilusões.


Primeiro se marcaram sinais,

com eles gravaram a História.

Em mentes que depois se revoltam

para crer que além Dela há bem mais.


Hoje matéria e História ameaçam

 sumir e calar aquelas vistas

(mais que em outras gerações):

por instinto que escolham a si.



sexta-feira, 3 de maio de 2024

Rente à rua

 As janelas que beiram muito a rua


Surgem na paisagem como rezas

inacabadas depois retomadas

resolutas na missão de saltear

o de fora e o de dentro e o vice-versa.


As janelas da cidade pequena

são dragas para olhares curiosos

que lampejam o privacê mais torpe

ou a mobília arrumada à novela.


As janelas da rua agora se afastam

ou os pavimentos que fogem delas

sem que seus segredos esmoreçam


Outras formas de assim se olhar por elas

ainda humanas, é fato, desenham-se:

luzes as emulam em novas telas.



(imagem gerada por inteligência artificial 

https://www.bing.com/images/create/a-small-village-with-simple-houses-and-windows-clo/1-66352026e9364200b6503d54e02db491?id=UGkmK4kTnx2jUG46BsKrHg%3D%3D&view=detailv2&idpp=genimg&noidpclose=1&thId=OIG1.mLiduOc4ISVAuMqCTy.f&FORM=SYDBIC&ssp=1&safesearch=moderate&setlang=pt-br&cc=BR&PC=SAADAND )








domingo, 14 de maio de 2023

Obrigado

Por sua presença impávida

Por emagrecer para que eu voasse

Por me prender para que o ninho não esvaziasse antes da hora

Por me soltar na hora do enfrentamento 

Pela repreensão de canto de olho que valia uma surra 

Pelas lembranças de como se proceder à moda antiga 

Por atualizar as maneiras do bem cuidar

Obrigado por toda 

Sua excelência 

Mãe