sábado, 24 de outubro de 2026

A isca e o anzol

 (véspera 2.o turno eleições presidenciais 25/10/2026)

Um dia para definir quem somos 

Jamil Chade


A frase é crítica mas não é tudo

Somos dois pólos simultaneamente 

Somos metade chão metade lustre

Herdeiros, e pau mandado, na gente 


Queremos conversar sem olhar peles

Nossos soslaios são edificantes

Com eles nascemos, metemos pé 

Somos vasos quase comunicantes 


Matem nossa sede, o orgulho torto

Não nos criaram grandes nem singelos

Vamos estruturar forros do berço

Levantar, correr e atirar chinelos.





domingo, 21 de junho de 2026

Terracota

a Murilo Riuto


Dos momentos puros, se existem, cuidam os artistas


Partiu amigo da infância de um mal severo

Despedida em vida seria desilusão de resgate

Em morte, à mortuária, nódua na primeira


O que foi do tempo nu da pecha da adultice

Deixemos nos confins dos descompromissos

É lá que se aproveita o genuíno da meninice


Nossos corpos terrenos cumpriram a tarefa

Uniram no sagrado qualquer almas céticas

Surpreenderam-nas em aura para sempre compartida


O império dos regozijos implanta-se no pensamento

Define o que é o humano particular

E aglomera sinais no coletivo da história


E dessa indefinição do tempo enterrado com o amigo

Até o tempo sublimado no encontro de crianças


Desses momentos puros, se existem, cuidam os artistas





domingo, 29 de junho de 2025

São João

Enquanto tochas de fé

Lampejarem neste mundo

Eu saberei de ti nele

Me chamando, e seguro


Com força no pé

Um sorriso largo

Um amor inteiro

Num leito em brasa


A esperança que carregas

Enche de luz meu segundo

Meu estado é já sem regras

Resgato tudo contigo


Paz no amanhecer

Um corpo que sara

A sede, se eleva

E urra como um galo




quarta-feira, 11 de junho de 2025

À Manuel Bandeira

Quando a mais silente das damas

no seu afã e inobservância chegar

vai encontrar:

um níquel trocado bem usado

migalhas miúdas pelo saco de pão aberto

um sapado respingado 

uma pela desejosa e macia

e uma alma lavada


domingo, 15 de dezembro de 2024

nome:

 Antes de tudo, uma grande dor

e olhos que mal se reconhecem.

Não saber o que se esperar molda

a ferida interna ao amadurecer.


Sós em mundos que se combatem

ora hereges ora guardiões

(ou chame-os à revelia também),

piscam numa rede de ilusões.


Primeiro se marcaram sinais,

com eles gravaram a História.

Em mentes que depois se revoltam

para crer que além Dela há bem mais.


Hoje matéria e História ameaçam

 sumir e calar aquelas vistas

(mais que em outras gerações):

por instinto que escolham a si.



sexta-feira, 3 de maio de 2024

Rente à rua

 As janelas que beiram muito a rua


Surgem na paisagem como rezas

inacabadas depois retomadas

resolutas na missão de saltear

o de fora e o de dentro e o vice-versa.


As janelas da cidade pequena

são dragas para olhares curiosos

que lampejam o privacê mais torpe

ou a mobília arrumada à novela.


As janelas da rua agora se afastam

ou os pavimentos que fogem delas

sem que seus segredos esmoreçam


Outras formas de assim se olhar por elas

ainda humanas, é fato, desenham-se:

luzes as emulam em novas telas.



(imagem gerada por inteligência artificial 

https://www.bing.com/images/create/a-small-village-with-simple-houses-and-windows-clo/1-66352026e9364200b6503d54e02db491?id=UGkmK4kTnx2jUG46BsKrHg%3D%3D&view=detailv2&idpp=genimg&noidpclose=1&thId=OIG1.mLiduOc4ISVAuMqCTy.f&FORM=SYDBIC&ssp=1&safesearch=moderate&setlang=pt-br&cc=BR&PC=SAADAND )








domingo, 14 de maio de 2023

Obrigado

Por sua presença impávida

Por emagrecer para que eu voasse

Por me prender para que o ninho não esvaziasse antes da hora

Por me soltar na hora do enfrentamento 

Pela repreensão de canto de olho que valia uma surra 

Pelas lembranças de como se proceder à moda antiga 

Por atualizar as maneiras do bem cuidar

Obrigado por toda 

Sua excelência 

Mãe


 

 


segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

O 8/1/23 🫠🫥🇧🇷

​O recado tá dado 🫠🫥🇧🇷! Sou tatara/bis-neto de quem antes comandava. E/Ou sou sem lastro com “essa gente” que passou a faixa. Gosto dessa terra sim! Até deixei de ir pra fora onde cumpriria leis que aqui me acostumei demais a não respeitar. Só pra  quebrar aqui e exigir um regime em que acho que tudo posso pra garantir o meu e de minha linhagem. A baixo aquela prisão das “quatro linhas”!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

“Irmanidades”

Um canto real

secara com a 

esperança de

novos ares


Uma língua amarga

sobrara pedindo

lufadas de temperança 


meu novo corpo

se molda a partir

do que deixaram

das estrelas


uma reunião de

propósitos vãos 

explicara a dor  

de vizinhos


Um gesto animal

se é que falam 

apontara

o norte possível 


siamês do mundo

luto por nós 

a desenhar

irmanidades


 



domingo, 22 de maio de 2022

Palavras-grifo

Mães repetem rezas,

não para ficarem.

Sim pra' revolver

entulho gigante

de palavras secas.


Os ritos zunem

passados, pessoas.

Com força definem

e evocam o lastro,

São palavras-grifo.


Seus sortilégios

nascem da vontade

sutil de ferir

o impulso da vida.

Resgatar-nos dela.


Mova e embaralhe

seu inocente dito,

mãe das palavras

sob a terra, guias.

Tente nosso pathos.


Contra elas anseios

e demandas novos

floresceremos.

Suas reiterações,

mãe, terão efeito.


A nós, explosões,

ecos de sua voz-

escombro alcançam.

E a nossos olhos

talismãs serão.








domingo, 12 de dezembro de 2021

Bolso deslocado

Quando a febre das idades passar

vou te guardar num bolso próximo,

perto de onde se vibra o

indiereggaefunkabilly que fizemos.

Corpos comuns de uma só cor 

testando a aquarela de desejos,

sem esperas e lamentações

sem queixas nem expectativas.

Uníssonos no flagra,

indistintos nas ondas dos cosmos,

faremos o único sentido possível

e o absurdo mais insólito.

Seremos privados e alardeados de muitos

porque nossa justeza não suscita porquês

nem descrenças.

Será após a era dos jugos

que te levarei secreta e escandalosamente

em cicatrizes costuradas que

choram riem marcam pulsam

a imensa jornada 

de um bolso deslocado.




sábado, 25 de setembro de 2021

Por que lado

Os dois lados que me mostras

apenas só me confundem

com cutículas que sangram

mais encartes recolhidos

e novas conflagrações


O lado que me reportas

vai do silêncio ao ruído

sem passar por ideias

vidas novas e incertas

vastidões pseudo-ocupadas


E este em que me lês

jamais me revela

espelho d'água ao sol

que ao se perturbar

se cintila e cega


Para o lado onde me levas

cada momento contigo

de sossego gritado

é um futuro inventado

que vale a dura pena


Os lados divididos

conquista e doação

curso e contingência

são uma fenda cava

e nós a sutura













domingo, 16 de maio de 2021

"Desamparo Aprendido"

Um sol arrastado casa a dentro

vence o galho que ensombra

e traz o sossego do tempo que pensa

que se em Marte tem terra.


O homem que brinca em atos sérios

contemporiza se valeu a pena,

se o que sobrou não é demais e pequeno,

diante de brilhos apagados nas janelas.


Percebe pares seus em queda

e vãos ínfimos em suas ventas

que ardem e não se preenchem:

um anseio canino lhe cerca.


Seu canto mesmo em farelos

não cede a incongruências,

faz imprecisa reação nos dentes

e uma língua indigente berra.


Doem-lhe as pilhérias 

das faltas de outros lar e tema.

Mas essa inação aparente do homem

é sua prova dos nove estratégica.